Entre os Jetsons, Mad Max e a Longa Marcha: Lula e o futuro do Brasil em disputa

Entre os Jetsons, Mad Max e a Longa Marcha: Lula e o futuro do Brasil em disputa

  • 22 de outubro de 2026
  • Mundo
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OPINIÃO DE IARA VIDAL, NO SUBSTACK – Sempre gostei de traduzir meus sentimentos e minha maneira de enxergar o mundo por meio das roupas, da cultura pop e desses elementos aparentemente banais do cotidiano que, às vezes, conseguem explicar melhor as contradições da nossa existência do que os discursos mais sofisticados da política. Talvez por isso eu leve tão a sério as referências que escolho para me vestir. Uma camiseta, um desenho animado ou uma personagem de ficção podem dizer muita coisa sobre como estamos nos sentindo diante do mundo.

Quando era criança, imaginava que os anos 2000 seriam exatamente como o desenho animado dos Jetsons. Teríamos carros voadores, robôs domésticos, cidades futuristas e uma vida confortável para todo mundo. A tecnologia faria o trabalho pesado, enquanto nós teríamos mais tempo para viver. Convenhamos, não era um projeto de sociedade ruim para uma menina que cresceu assistindo televisão.

Mas aquela fantasia não vinha apenas dos desenhos animados. Ela também era fruto do Brasil em que cresci, um país que saía de uma ditadura militar e tentava aprender a viver em democracia. Havia uma sensação, talvez ingênua, de que estávamos caminhando para alguma coisa melhor. Depois de tantos anos de autoritarismo, parecia razoável imaginar que o futuro seria mais livre, mais justo e, quem sabe, até um pouco parecido com os Jetsons.

Eu acreditava que o progresso era quase inevitável. Que a ciência, a tecnologia, o conhecimento e a democracia nos levariam, naturalmente, a uma sociedade menos desigual. Não passava pela minha cabeça que poderíamos avançar tanto na capacidade de produzir máquinas inteligentes e, ao mesmo tempo, continuar tão atrasados na capacidade de conviver uns com os outros.

Essa esperança ganhou um significado muito particular em 2003, quando Lula tomou posse pela primeira vez como presidente do Brasil. Pela primeira vez em cinco séculos de história, um homem saído da classe trabalhadora chegava à Presidência da República. Para mim, aquilo não era apenas uma mudança de governo. Era a materialização de uma possibilidade que, durante muito tempo, parecera distante demais.

Eu era uma jovem casada, mãe de dois filhos pequenos. Um deles ainda era um bebê de colo, com apenas seis meses de vida. Assisti à festa da posse pela televisão, emocionada, enquanto tentava conciliar aquela avalanche de sentimentos com as tarefas de uma casa onde havia duas crianças para cuidar. A vida real, como sempre, não dava folga nem nos grandes momentos da história.

Talvez meu filho não se lembre daquele dia. Eu me lembro pelos dois.

Vieram anos de mudanças importantes, sobretudo para a população mais pobre. Milhões de brasileiros passaram a ter acesso a oportunidades que antes pareciam reservadas a uma pequena parcela da sociedade. Depois, elegemos Dilma Rousseff, a primeira mulher a presidir o Brasil. A menina que imaginava carros voadores tinha motivos para acreditar que, mesmo sem a tecnologia dos Jetsons, alguma coisa estava finalmente dando certo.

Só que a história não é um desenho animado com episódios organizados e final feliz garantido.

Veio o golpe parlamentar contra Dilma, vieram os retrocessos, veio o bolsonarismo. E descobrimos, da pior maneira possível, que a democracia não é uma conquista que se guarda numa gaveta depois de alcançada. Ela pode ser corroída, atacada, banalizada e até destruída por dentro.

O Brasil que um dia me fez imaginar um futuro de prosperidade também se revelou capaz de produzir um Congresso onde convivem antifeministas, homofóbicos, mitômanos e uma coleção de personagens tão grotescos que nenhum roteirista de ficção distópica conseguiria reunir sem ser acusado de exagero.

Às vezes penso que nosso sistema político virou uma espécie de reality show de baixíssimo orçamento, mas com consequências caríssimas para a população. A diferença é que ninguém consegue mudar de canal quando começa a votação de um projeto que afeta a vida de milhões de pessoas.

E foi assim que minha preocupação mudou.

Quando criança, eu tinha medo de que os Jetsons nunca se tornassem realidade. Hoje, tenho medo de que aquele futuro imaginado se transforme, de maneira cada vez mais avassaladora, em Mad Max.

O mais assustador é perceber como tanta gente parece ter esquecido o que foram os quatro anos daquela família do inferno no poder. Eu olho para o Brasil e me pergunto como conseguimos transformar experiências tão recentes em lembranças tão frágeis. Será que quatro anos são suficientes para que uma sociedade esqueça o que viveu?

Talvez a pergunta mais importante seja outra: o que acontece com um país quando ele perde a capacidade de aprender com a própria história?

A Longa Marcha e a teimosia de continuar

Hoje, 22 de outubro de 2026, a China comemora os 90 anos da vitória da Longa Marcha do Exército Vermelho, uma das jornadas mais marcantes da história revolucionária chinesa.

Entre 1934 e 1936, tropas do Exército Vermelho percorreram milhares de quilômetros, atravessaram rios, montanhas cobertas de neve e regiões pantanosas, enfrentaram combates e enormes perdas humanas. A Longa Marcha não foi um desfile de vitórias fáceis. Foi uma retirada militar marcada por sofrimento, sacrifícios e pela luta para preservar um movimento revolucionário que corria o risco de desaparecer.

Há um aspecto dessa história que me interessa especialmente: a capacidade de continuar caminhando quando as circunstâncias parecem anunciar o fim.

Nesta quinta-feira, durante a cerimônia comemorativa em Beijing, Xi Jinping afirmou que somente ao lembrar a história é possível construir o futuro.

“Somente ao lembrar a história é possível construir o futuro.”
Xi Jinping, presidente da República Popular da China e
secretário-geral do Partido Comunista da China

A frase ficou ecoando na minha cabeça.

Não porque eu queira comparar uma campanha eleitoral brasileira à Longa Marcha do Exército Vermelho. São experiências históricas profundamente diferentes. Uma envolve uma guerra revolucionária travada na China dos anos 1930; a outra, uma disputa política que precisa ser resolvida pelo voto, dentro das instituições democráticas brasileiras.

Mas existe uma reflexão comum sobre a importância da memória, da perseverança e da capacidade de não abandonar um projeto coletivo diante das derrotas.

A Longa Marcha nos ensina, entre outras coisas, que a história não avança em linha reta. Há momentos em que é preciso recuar, reorganizar as forças, enfrentar contradições e continuar, mesmo quando o caminho parece longo demais.

E, olhando para minha própria história, percebo quantas vezes precisei reaprender essa lição.

A menina que acreditava nos Jetsons cresceu, viveu a redemocratização, acompanhou a eleição de Lula, a chegada de Dilma à Presidência, o impeachment, a ascensão do bolsonarismo e a volta de Lula ao Palácio do Planalto. Em cada uma dessas etapas, alguma parte daquela ideia de futuro foi sendo reconstruída, desafiada ou colocada em dúvida.

Talvez amadurecer politicamente seja também compreender que nenhuma conquista está garantida para sempre.

Uma eleição e muitas memórias

Neste domingo, 25 de outubro, o Brasil volta às urnas para escolher seu presidente. Lula disputa a reeleição com Flávio Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro.

A disputa acontece em um país profundamente dividido, mas não sem memória. Ainda estão presentes as experiências dos governos anteriores, os conflitos em torno da democracia, as dificuldades econômicas e as diferentes expectativas sobre o papel do Estado e os rumos do desenvolvimento brasileiro.

Eu acompanho tudo isso daqui de Beijing, a milhares de quilômetros de casa, tentando compreender o que essas escolhas representam para o futuro do país onde nasceram meus filhos e ao qual continuo profundamente ligada.

E existe algo de extraordinário em observar a política brasileira a partir da China justamente numa data como esta. Enquanto os chineses recordam uma jornada histórica que ajudou a moldar seu país, nós brasileiros nos preparamos para escrever mais um capítulo da nossa própria trajetória democrática.

É impossível não pensar na obstinação de Lula, um homem que atravessou derrotas eleitorais, chegou à Presidência, deixou o governo com enorme popularidade, enfrentou a prisão, retornou à política e agora, aos 80 anos, disputa mais uma eleição presidencial.

Sua trajetória, independentemente de como cada brasileiro a avalie, é também um retrato de décadas de transformações sociais, conflitos e disputas sobre os caminhos do Brasil.

Penso nisso e me lembro daquela jovem mãe, diante da televisão, em janeiro de 2003. Ela não sabia quantas voltas a história ainda daria. Não imaginava que viveria na China, que acompanharia outra campanha eleitoral a partir de Beijing, muito menos que um dia estaria escrevendo sobre os Jetsons, Mad Max e a Longa Marcha no mesmo texto.

A rigor, eu mesma não sei se isso é sinal de amadurecimento intelectual ou de que o mundo ficou tão absurdo que finalmente obrigou a cultura pop a dividir espaço com a história revolucionária chinesa.

Provavelmente as duas coisas.

O futuro não vem pronto

Tenho pensado muito sobre a relação entre progresso tecnológico e progresso social. Moro em um país onde robôs, carros elétricos, trens de alta velocidade e tecnologias que pareciam ficção científica fazem parte do cotidiano.

Em muitos aspectos, a China que conheço hoje está mais próxima dos Jetsons do que o mundo que eu imaginava quando criança.

Mas viver aqui também reforçou uma convicção: tecnologia, por si só, não produz uma sociedade justa. O futuro depende de decisões políticas, de planejamento, das prioridades que uma sociedade estabelece e da capacidade de transformar conhecimento em melhores condições de vida.

Talvez o grande equívoco da minha infância tenha sido acreditar que o futuro chegaria sozinho. Como se bastasse virar a página do calendário para que a humanidade se tornasse mais inteligente, solidária e democrática.

Hoje sei que não funciona assim.

Uma sociedade pode desenvolver sistemas sofisticadíssimos de inteligência artificial e continuar reproduzindo preconceitos medievais. Pode construir máquinas que exploram outros planetas e permanecer incapaz de garantir dignidade às pessoas que vivem nas ruas. Pode colocar robôs dentro de casa e eleger políticos que parecem ter escapado de alguma distopia particularmente mal escrita.

É por isso que continuo recorrendo às roupas, aos desenhos animados e à cultura pop para falar de política. Essas referências me ajudam a organizar uma pergunta que insiste em voltar: que tipo de futuro estamos construindo?

A lembrança da Longa Marcha acrescenta outra dimensão a essa pergunta. O futuro que queremos não depende apenas da capacidade de imaginá-lo, mas também da disposição de atravessar os obstáculos que nos separam dele.

E há uma diferença importante entre perseverar e simplesmente repetir os mesmos caminhos. A memória só se torna uma ferramenta de transformação quando somos capazes de reconhecer os erros, compreender as derrotas e encontrar novas maneiras de seguir adiante.

Talvez seja essa a parte mais bonita da frase de Xi Jinping: lembrar a história não significa viver preso ao passado. Significa recuperar dele aquilo que pode nos ajudar a construir alguma coisa diferente.

Eu continuo querendo os Jetsons. Não necessariamente os carros voadores, embora confesse que seriam muito úteis para escapar do trânsito de São Paulo. Quero o futuro que aquela menina imaginava por trás de toda a parafernália tecnológica: uma vida digna, mais tempo para as pessoas, menos desigualdade, mais conhecimento e a liberdade de sonhar sem medo.

Não quero um país condenado a escolher entre o cinismo e o desespero, nem uma sociedade que trate a desigualdade como destino inevitável.

Entre os Jetsons que imaginei e o Mad Max que temo, existe uma história que ainda estamos escrevendo.

E, se há alguma coisa que aprendi ao longo desses anos, é que o futuro nunca esteve garantido.

Mas também nunca esteve completamente perdido.

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Redação CBM Brasília
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