As areias da Bahia podem contribuir com a imensa fortuna da família Trump e para eternizar o MAGA como movimento político. Não se trata do ramo hoteleiro, nem dos campos de golfe — como foram os cassinos, investimentos incapazes de gerar grandes fortunas a curto prazo.
O mais recente capítulo da série Revelando, apresentado pelo ator Wagner Moura, denuncia a entrega dos minerais raros brasileiros aos Estados Unidos, por conta do trabalho político feito fora do Brasil por Paulo Figueiredo e o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, ambos foragidos da Justiça.
No episódio, Moura destaca o papel de uma empresa estadunidense, a Energy Fuels, na exploração de terras raras no sul da Bahia.
Citando a página Noites Húngaras, Moura diz que a empresa estadunidense tem 19 processos minerários ativos nos municípios baianos de Alcobaça, Caravelas e Prado. Registros na Agência Nacional de Mineração não significam que as jazidas já estejam em produção.
O Projeto de Areias Pesadas de Minerais de Alcobaça e Terras Raras foca na produção de minerais a partir de monazita (que contém terras raras), além de ilmenita e rutilo (titânio) e zircão (zircônio).
O cério, principal produto retirado da monazita, tem alta reatividade e pode ser aplicado em ligas metálicas com maior resistência e durabilidade.
O mesmo pode ser dito do titânio, que combina resistência e leveza. O zircônio é maleável e altamente resistente à corrosão.
A produção de ligas metálicas mais leves e resistentes reduz o consumo de combustível e facilita a dirigibilidade, por exemplo, de um míssil ou drone.
A Energy Fuels é baseada na região de Denver, no Colorado. É uma empresa de capital aberto que tem como investidores mega corporações das finanças.
Ela própria se apresenta como estratégica para os Estados Unidos:
Com sede em Denver, a Energy Fuels é uma empresa global de minerais críticos, preparada para fornecer 10 dos 50 minerais críticos que o mundo precisa para a tecnologia atual e futura. […] Atualmente, somos o maior fornecedor de urânio dos EUA, abastecendo as empresas de energia nuclear estadunidenses com o primeiro passo no ciclo de combustível nuclear com zero emissões. Também produzimos óxidos de terras raras, processados em nossas instalações nos EUA, e estamos adicionando novos produtos como titânio, minerais de zircão e isótopos medicinais.
A Energy Fuels tem três grandes projetos fora dos EUA: o Toliara, na ilha de Madagascar; o da Bahia e o Projeto Donald, na Austrália, com participação de até 49% numa parceria com a agora australiana Astron Corporation Limited.
Nos Estados Unidos, a Energy Fuels fechou um acordo com outra empresa local, a Vulcan, para livrar os Estados Unidos da dependência de ímãs produzidos na China.
Produção da Energy Fuels será utilizada pela Vulcan para desenvolver ímãs utilizados em veículos elétricos, turbinas de vento, drones, satélites, datacenters e automação industrial. Ao anunciar o acordo, a Energy Fuels informou que vai utilizar matéria prima extraída por outra empresa em minas da Flórida e da Geórgia. O refino será feito no estado de Utah.
Interessado em se livrar da dependência chinesa, o Pentágono investiu diretamente U$ 620 milhões na Vulcan. Embora pouco conhecido, o Pentágono tem um escritório batizado de Office of Strategic Capital, que usa dinheiro público para estimular a indústria nacional.
O investimento causou polêmica porque foi feito pouco depois da Vulcan receber capital privado da 1789 Capital, empresa fundada em 2022 na Flórida — que se define como “financiadora da nova fase do Excepcionalismo estadunidense”.
Donald Trump Jr. é sócio e integrante da diretoria da empresa.
Desde que a 1789 Capital investiu na Vulcan a valorização da empresa disparou. De acordo com a Bloomberg, saltou de U$ 200 milhões para U$ 2 bilhões.
É dinheiro no bolso de Donald Trump Jr., acusado de se beneficiar de decisões tomadas pelo governo do pai.
Desde que Trump voltou à Casa Branca, os Estados Unidos turbinaram as ofertas de regalia ou os contratos de parceria com o capital privado através do Departamento de Comércio ou do Escritório de Capital Estratégico do Pentágono.
O argumento é de que o Estado precisa ajudar a enfrentar a competição chinesa. Com isso, Trump está criando uma nova classe de empresários ligada umbilicalmente ao MAGA.
No caso da Vulcan, deputados democratas tentaram convocar Donald Trump Jr. para depor no Congresso, sem sucesso. A Vulcan surgiu apenas em 2023.
A Vulcan Elements sustenta que o projeto de reindustrialização de Trump para os EUA passa por ela:
Ímãs permanentes de neodímio-ferro-boro alimentam as tecnologias mais importantes do mundo. Eles convertem eletricidade em movimento, viabilizando tudo, desde semicondutores, infraestrutura de IA e automóveis até satélites, sistemas aeroespaciais, robótica, drones e praticamente todas as aplicações de Defesa. A Vulcan é a plataforma para o futuro industrial, à medida que nosso mundo se torna mais avançado e eletrificado.
Em seu site, a Vulcan diz que trabalha exclusivamente com matéria prima produzida nos Estados Unidos ou de “parceiros aliados”, sem especificar quais são.
Embora a matéria prima brasileira ainda não seja mencionada nos negócios da Energy Fuels e da Vulcan, é óbvio que para livrar os EUA da dependência chinesa o Brasil teria de se tornar um firme fornecedor estadunidense no futuro, o que um exigiria um governo complacente em Brasília — como os que no passado entregaram o manganês do Amapá, os minérios de Carajás e, parcialmente, o petróleo do pré-sal.
Embora o vice-presidente JD Vance e o secretário de Estado Marco Rubio sejam apontados como possíveis sucessores de Trump, é apenas cortina-de-fumaça. A candidata a sucessora dele é a nora Lara Trump, casada com o filho Eric, que foi colocada pelo sogro na direção do Partido Republicano na campanha em que Donald recuperou a Casa Branca.
Como no caso dos Bolsonaro, a família vem em primeiro lugar.
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