Por que a Longa Marcha ainda importa 90 anos depois?

Por que a Longa Marcha ainda importa 90 anos depois?

  • 13 de outubro de 2026
  • Mundo

No outono de 1934, após anos de batalhas extenuantes contra as sucessivas campanhas de cerco do Kuomintang, o Exército Vermelho Chinês do Partido Comunista da China (PCCh) enfrentou um momento decisivo e decidiu realizar uma mudança estratégica militar.

Para romper o cerco, as principais forças do Exército Vermelho deixaram a área da base revolucionária central, no leste da China, e partiram em uma jornada histórica. Ao longo dos dois anos seguintes, atravessaram 14 províncias, escalaram quase 40 grandes montanhas, cruzaram cerca de 100 rios e travaram mais de 600 batalhas. Essa extraordinária jornada ficou conhecida como a Longa Marcha.

Mas por que uma retirada militar ainda importa 90 anos depois? Por que a Longa Marcha continua sendo lembrada na China atualmente?

Para muitos chineses, a Longa Marcha permanece como parte da memória coletiva do país não apenas por causa das batalhas travadas, mas também pela coragem e pela resistência das pessoas comuns e dos soldados que suportaram dificuldades extraordinárias ao longo do caminho.

As histórias a seguir oferecem um vislumbre do sacrifício, da solidariedade e da perseverança que marcaram essa extraordinária jornada.

Mãos que abriram caminho

A Longa Marcha começou em outubro de 1934, no condado de Yudu, na província de Jiangxi, no leste da China.

No mês anterior à partida do Exército Vermelho, mulheres de Yudu trabalharam dia e noite para fabricar 200 mil pares de sandálias de palha, garantindo a cada soldado que partia mais de um par. Para ajudar mais de 86 mil soldados do Exército Vermelho a atravessar o rio Yudu, os moradores forneceram mais de 800 barcos e chegaram a desmontar portas, tábuas de camas e caixões funerários para construir pontes flutuantes.

Na época, entre os 2,4 milhões de habitantes do sul de Jiangxi, mais de 330 mil ingressaram no Exército Vermelho e mais de 600 mil participaram de esforços para apoiar as tropas.

Para o Exército Vermelho, esse apoio da população local tornou-se uma importante fonte de força durante toda a Longa Marcha.

Mantendo viva a comunicação

Ao deixar Jiangxi e seguir para o oeste, o Exército Vermelho levou consigo dois equipamentos vitais: um transmissor de rádio e um gerador de manivela de 68 quilos. Como havia apenas uma unidade de cada equipamento, o Exército Vermelho formou um destacamento de 128 integrantes para transportá-los e protegê-los durante toda a Longa Marcha.

A jornada foi extenuante, com forças inimigas à frente, perseguidores atrás e repetidos ataques aéreos vindos de cima. O destacamento de escolta sofreu pesadas baixas ao longo do caminho.

Depois de batalhas mortais, o Exército Vermelho também precisou enfrentar condições naturais extremas. Em junho de 1935, o frio intenso e as grandes altitudes tornaram cada vez mais difícil atravessar as montanhas cobertas de neve. Em agosto, quando o exército se preparava para cruzar as vastas pradarias pantanosas, restavam apenas três dos 128 soldados originais.

Eles mantiveram as linhas de comunicação em funcionamento a um custo elevado, personificando a perseverança e a dedicação que marcaram a Longa Marcha.

Dos reveses aos êxitos estratégicos

No início da Longa Marcha, o Exército Vermelho sofreu uma série de reveses em suas campanhas militares para romper os cercos inimigos.

Uma das primeiras batalhas mais sangrentas ocorreu às margens do rio Xiangjiang, em Guangxi, no sul da China, em novembro de 1934. O Exército Vermelho Central sofreu pesadas baixas: contava com 86 mil integrantes quando iniciou a marcha, mas seu efetivo caiu para pouco mais de 30 mil após a batalha.

As perdas levaram a uma reavaliação da estratégia militar e da liderança, que culminou na Reunião de Zunyi, em janeiro de 1935. O encontro corrigiu erros da liderança militar da época e reafirmou a abordagem de Mao Zedong para a estratégia militar.

A Reunião de Zunyi é amplamente considerada na China um importante ponto de virada na Longa Marcha, após o qual o Exército Vermelho alcançou uma série de êxitos estratégicos.

Travessias que mudaram o rumo da campanha

Um dos exemplos mais claros ocorreu pouco depois, no rio Chishui, que atravessa as províncias de Guizhou, Yunnan e Sichuan, no sudoeste da China.

Entre 19 de janeiro e 22 de março de 1935, o Exército Vermelho, com pouco mais de 30 mil soldados, realizou manobras para evitar o confronto direto com uma força inimiga de aproximadamente 400 mil soldados. As tropas mudaram repetidamente de direção e cruzaram o rio de um lado para o outro quatro vezes para romper o cerco.

Na primeira travessia, evitaram as principais forças inimigas. Na segunda, retomaram a cidade de Zunyi. Na terceira, atraíram o inimigo para o oeste. Na quarta, conseguiram romper o cerco militar.

Em 1960, o marechal britânico Bernard Montgomery elogiou o comando de Mao Zedong nas campanhas de Liaoshen, Huaihai e Pingjin, afirmando que elas estavam entre as maiores batalhas da história. Mao, no entanto, apontou as quatro travessias do rio Chishui como a “maior realização” de sua carreira militar.

17 soldados, um único caminho a seguir

Outro momento decisivo ocorreu no rio Dadu, em maio de 1935.

Nas proximidades de Anshunchang, na província de Sichuan, no sudoeste da China, o rio corta montanhas íngremes e corre por trechos de águas turbulentas e perigosas, formando uma barreira natural formidável. O Kuomintang havia mobilizado mais de 100 mil soldados para encurralar e eliminar o Exército Vermelho ao sul do rio.

Sob o comando de Mao Zedong e de outros líderes, o Exército Vermelho decidiu atravessar o rio em Anshunchang, onde a correnteza era forte e a travessia era considerada quase impossível, mas as defesas inimigas eram relativamente frágeis. A manobra desarticulou o posicionamento das forças do Kuomintang.

Em 25 de maio de 1935, 17 soldados foram escolhidos para liderar um ataque através do rio turbulento. Sob intenso fogo inimigo, eles alcançaram a margem norte e tomaram o ponto de travessia, abrindo uma rota para o norte para as forças do Exército Vermelho.

O reencontro final das principais forças do Exército Vermelho

Após as batalhas ao longo do rio Dadu, a Longa Marcha entrou em uma nova etapa.

Com o objetivo de estabelecer uma base revolucionária no noroeste da China, o Exército Vermelho Central começou a atravessar uma série de montanhas cobertas de neve e vastas áreas pantanosas antes de chegar a Wuqi, na província de Shaanxi, no noroeste da China, em outubro de 1935, marcando o fim da Longa Marcha do Exército Vermelho Central.

Um ano depois, em 9 de outubro de 1936, o Quarto Exército de Frente do Exército Vermelho chegou a Huining, na província de Gansu, no noroeste da China, e se encontrou com o Exército Vermelho Central. Naquele momento, os soldados estavam exaustos e enfrentavam uma grave escassez de alimentos e outros suprimentos, após atravessarem montanhas cobertas de neve e pradarias.

Durante sua permanência em Huining, eles receberam amplo apoio dos moradores locais. Segundo registros, a população de Huining forneceu ao Exército Vermelho mais de 2,5 milhões de quilos de grãos e 6.380 peças de tecido e roupas. Mais de 400 jovens da região também ingressaram no Exército Vermelho.

Em 22 de outubro de 1936, o Segundo Exército de Frente do Exército Vermelho também chegou à região central de Gansu e se encontrou com o Exército Vermelho Central, marcando o reencontro final das três principais forças do Exército Vermelho e o fim da Longa Marcha.

A Longa Marcha, que durou dois anos, foi um divisor de águas histórico. Ela frustrou a campanha do Kuomintang para cercar e eliminar o Exército Vermelho, transferiu a base revolucionária do PCCh para o noroeste da China e preparou o terreno para um novo capítulo da revolução chinesa.

Redação CBM Brasília
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