Nascido na Nova Zelândia em 8 de outubro de 1897, Rewi Alley serviu no exterior durante a Primeira Guerra Mundial e depois retornou a seu país natal, onde tentou fazer a vida criando ovelhas.
Mas a vida tinha outros planos para ele: intrigado pelo que leu sobre a China, Alley decidiu deixar a Nova Zelândia em dezembro de 1926 “para ir ver a revolução chinesa”. Chegou a Xangai em 21 de abril de 1927.
Durante seus primeiros dez anos na China, Alley trabalhou como oficial do corpo de bombeiros, inspetor de fábrica e trabalhador auxiliar, carreiras que lhe possibilitaram testemunhar as terríveis condições de vida dos trabalhadores chineses, levando-o a se identificar com as lutas da classe trabalhadora por uma vida digna.
Em 1934, Alley juntou-se ao primeiro grupo internacional de estudos marxistas e passou a manter contato com o Partido Comunista da China (PCCh). Durante esse período, participou ativamente da Guerra de Resistência contra o Japão (1931–1945).
No período em que morou na rua Yuyuan, 1315, em Shanghai, entre 1932 e 1937, Alley transformou sua casa em um importante ponto de apoio para a revolução chinesa. No sótão do imóvel, a pedido do PCCh, foi montada uma estação de rádio secreta para manter contato com o Exército Vermelho durante a Longa Marcha.
A operação da estação ficou a cargo de um engenheiro britânico e de duas militantes comunistas alemãs que moravam com Alley. Em uma ocasião, em 1937, uma equipe de inspeção entrou na casa para verificar um vazamento elétrico, e Alley e seus companheiros só conseguiram evitar a descoberta do equipamento ao desviar a atenção dos inspetores com bebidas, enquanto desconectavam rapidamente os fios da estação.
A fundação e o desenvolvimento do Gung Ho
A atuação de Alley também foi fundamental no campo do cooperativismo: em 1938, ele fundou as Cooperativas Industriais Chinesas (CIC) com um grupo de patriotas chineses, convocando trabalhadores desempregados a apoiar a resistência contra a agressão japonesa.
A organização ficou conhecida pelo slogan “Gung Ho”, criado por Alley, que significa “trabalhar juntos”. O Gung Ho visava organizar cooperativas autossustentáveis de pequena escala, que ofereciam empregos para os trabalhadores enquanto continuavam a produção para apoiar a resistência contra os invasores japoneses.

As vantagens das cooperativas eram muitas: podiam ser deslocadas, eram facilmente camufláveis, facilmente instaláveis e não eram, como as grandes fábricas, alvos evidentes para os aviões de guerra japoneses.
Essas cooperativas forneciam necessidades militares que nenhuma outra fonte na China podia produzir com tanta eficiência e, acima de tudo, davam a milhões de refugiados a esperança de ajuda contínua na forma de empregos.
O movimento Gung Ho, que começou como um esforço cooperativo para apoiar a resistência chinesa, permanece vivo através do Comitê Internacional para a Promoção das Cooperativas Industriais Chinesas (ICCIC), organização fundada em 1939 e revitalizada em 1987.
Com o fim da guerra e a fundação da nova China, o movimento Gung Ho deixou de praticar um esforço de guerra e passou a promover o desenvolvimento econômico e social através do modelo cooperativo, mantendo vivo o ideal de seus fundadores.
Atualmente, o Gung Ho tem exapandido sua rede de escritórios regionais pela China, e tem desenvolvido atividades importantes em dois campos principais, a educação profissional interligada às necessidades da indústria, e a cooperação internacional, participando de eventos como a conferência da Aliança Cooperativa Internacional.
A Escola Bailie
Como parte do movimento Gung Ho, Alley precisava treinar jovens chineses nas habilidades de que as cooperativas precisavam. Com esse objetivo, Alley fundou a Escola Bailie. O nome é uma homenagem a Joseph Bailie (1860–1935), educador estadunidense e pioneiro na educação profissional.
As escolas eram patrocinadas pela CIC para oferecer treinamento e apoio. A primeira escola foi estabelecida em 1940 em várias partes do país, e uma numa pequena vila chamada Shuangshipu foi reativada em 1941 sob a liderança de George Hogg.
Alley frequentemente ia para Shuangshipu e ajudou Hogg a se mudar para Shandan, na província de Gansu, em dezembro de 1942, quando a escola estava ameaçada pelo avanço japonês. Depois que Hogg morreu de tétano em julho de 1945, Alley assumiu a direção da escola.
A Escola Bailie treinava jovens em habilidades técnicas úteis para a revolução chinesa, tendo formado quase seiscentos jovens técnicos, que tiveram papel importante na reconstrução da China pós-guerra.
Alley continuou na escola depois que o Partido Comunista da China chegou ao poder em 1949, mas gradualmente perdeu o controle para autoridades partidárias locais. Nos anos 1980, Alley e outros veteranos do Gung Ho conseguiram reativar a organização, e ele concebeu um plano para uma nova escola em Shandan, inaugurada em 21 de abril de 1987, o 60º aniversário de sua chegada à China.
Estudo da cerâmica chinesa
Rewi Alley também dedicou-se ao estudo da cerâmica chinesa como uma extensão de sua profunda imersão na cultura e história do país. Sua abordagem combinou a exploração direta dos sítios de fornos antigos com a formação de uma vasta coleção de artefatos, sempre com o objetivo de promover o entendimento intercultural.

Para isso, ele viajou extensivamente pelo país, documentando e visitando fornos antigos e modernos. Ele coletou pessoalmente fragmentos de cerâmica e fotografias durante essas viagens, reunindo um manuscrito sobre sítios de fornos históricos chineses, trabalho de campo que deu origem ao livro Some Pottery Kilns Old and New in China (Alguns fornos de cerâmica antigos e novos na China), de sua autoria.
Em 1983, Alley colaborou com a ceramista australiana Wanda Garnsey no livro China, Ancient Kilns and Modern Ceramics: A Guide to the Potteries (China, fornos antigos e cerâmica moderna: Um guia sobre cerâmicas). A obra, fruto de uma longa amizade entre os dois, teve acesso a informações atualizadas sobre a arqueologia e a indústria cerâmica chinesa, descrevendo tanto a busca por fatos históricos quanto a manufatura contínua de objetos de beleza.
Ao longo de mais de 60 anos, Alley formou uma vasta coleção de arte e antiguidades chinesas, que incluía um número significativo de cerâmicas. Essa coleção, com cerca de 1.400 itens, reflete quase 4.000 anos da cultura chinesa e abrange cerâmicas, jades, bronzes e pinturas.
Grande parte da coleção foi doada ao Canterbury Museum, na Nova Zelândia. Alley via esses objetos como ferramentas de diplomacia cultural, utilizando-os para promover a compreensão da cultura chinesa e nutrir simpatias pela nova China na Nova Zelândia.
A coleção, formada com a aprovação do governo chinês, é considerada um exercício pioneiro no uso da arte para fins diplomáticos. Destaques incluem cerâmicas da Dinastia Han encontradas no Deserto de Gobi e objetos neolíticos descobertos na fazenda da Escola Bailie em Shandan.
Além de seus próprios escritos, Alley esteve presente na descoberta de cerâmicas em 1948, fornecendo relatos detalhados sobre o contexto arqueológico. Sua correspondência também documenta o interesse por artefatos específicos, como estribos dourados em cavalos de cerâmica de tumbas da dinastia Han em Luoyang.

O trabalho de Alley ajudou a estabelecer uma ponte entre a arqueologia chinesa e o público ocidental, transformando sua paixão pessoal por cerâmica em um legado duradouro de entendimento cultural.
Os anos em Beijing
Após deixar a direção da Escola Bailie, Rewi Alley mudou-se para Pequim em 1953. Na capital chinesa, ele inicialmente residiu no Hotel Pequim, junto com outros “amigos estrangeiros da China”.
Em 1958, a convite do premiê Zhou Enlai, Alley ele se mudou para um apartamento no complexo Youxie da Associação de Amizade do Povo Chinês com Povos Estrangeiros, na região central da cidade, onde residiu até o fim de sua vida.
A partir da década de 1970, a trajetória de Alley foi marcada por gratidão e reconhecimento por tudo o que fez pelo povo chinês. Em 1977, por ocasião de seu 80º aniversário, recebeu uma homenagem oficial em Beijing, com a presença de Deng Xiaoping.
Durante as décadas que viveu em Beijing, Alley escreveu uma vasta obra literária que inclui perfis de estrangeiros na China, poesias autorais, relatos de viagem, estudos sobre porcelana, história e traduções de clássicos chineses. Seus escritos são uma janela para a China do século XX, misturando observação pessoal, paixão política e profundo conhecimento cultural.

Alley traduziu e poesia clássica chinesa para torná-la acessível ao público internacional, tendo compilado diversos livros em inglês com obras de poetas das dinastias Tang e Song, e sempre expressou predileção por Du Fu, afirmando que o poeta, ao longo de toda sua vida, sempre teve o povo em seu coração.
Alley também manteve, até o fim de sua vida, contatos internacionais e, como neozelandês, procurou contribuir para a amizade entre a China e a Nova Zelândia, esforço que foi lembrado pelo presidente Xi Jinping em um discurso, em 2014.
Em 1982, Alley recebeu o título de cidadão honorário de Beijing, por ocasião de seu 85º aniversário. Três anos depois, tornou-se cidadão honorário da província de Gansu.
Rewi Alley faleceu em Beijing, em 27 de dezembro de 1987, poucas semanas depois de celebrar seu 90º aniversário. Conforme sua vontade manifestada em vida, suas cinzas foram espalhadas em Shandan, na província de Gansu, região à qual dedicara uma parte fundamental de sua vida.
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