Organização de Cooperação de Shanghai: como a Ásia lidera o diálogo multilateral em segurança

Organização de Cooperação de Shanghai: como a Ásia lidera o diálogo multilateral em segurança

  • 31 de agosto de 2026
  • Mundo
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A Organização de Cooperação de Shanghai (OCS) reúne, nesta segunda-feira (31) e na terça-feira (1º), em Bishkek, capital do Quirguistão, os líderes dos dez países que integram a organização. O encontro ocorre em um cenário de aumento das tensões internacionais e coloca no centro das discussões a cooperação entre países asiáticos em áreas como segurança, combate ao terrorismo, crime transnacional, cibersegurança e estabilidade regional.

Participam da cúpula, entre outros líderes, o presidente da China, Xi Jinping, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, e o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi. A presença simultânea das três maiores potências da organização dá ao encontro peso político particular, embora a OCS não seja uma aliança militar e não tenha como objetivo declarado se contrapor a outros países ou blocos.

Criada em 2001, em Xangai, a organização nasceu a partir da experiência do chamado Grupo dos Cinco, formado por China, Rússia, Cazaquistão, Quirguistão e Tadjiquistão. O Uzbequistão ingressou no momento de criação da OCS. A estrutura foi posteriormente ampliada com a entrada de Índia e Paquistão, em 2017, Irã, em 2023, e Belarus, em 2024. Atualmente, são dez membros plenos.

A China ocupa uma posição central nessa trajetória. A organização foi criada em Xangai e Beijing abriga o secretariado da OCS. Além disso, a China é um dos seis países fundadores e participa desde o início dos mecanismos de segurança que deram origem à entidade.

China e a construção de um mecanismo regional de segurança

A origem da OCS está diretamente relacionada à construção de mecanismos multilaterais de confiança entre os países da Ásia Central e a China. Antes da criação da organização, os integrantes do chamado Grupo dos Cinco haviam firmado acordos para aumentar a confiança militar e reduzir forças armadas nas regiões fronteiriças.

Com a criação da OCS, a cooperação foi ampliada para o combate ao terrorismo, ao separatismo e ao extremismo. Posteriormente, a agenda de segurança passou a incorporar ameaças como crime organizado transnacional, tráfico de drogas, cibercrime e outros riscos associados à digitalização.

Um dos principais instrumentos dessa estrutura é a Estrutura Regional Antiterrorista da OCS (RATS), criada em 2002. O mecanismo funciona como centro de coordenação entre os países-membros e promove intercâmbio de informações e cooperação entre autoridades de segurança.

A preparação para a cúpula de Bishkek também mostrou que segurança continua sendo uma das prioridades da organização. Em abril, ministros da Defesa dos países-membros discutiram terrorismo, extremismo, crime transnacional e ameaças no espaço digital, além de exercícios conjuntos e mecanismos de cooperação militar. Em junho, ministros do Interior e da Segurança Pública trataram de crime organizado, tráfico de drogas e crimes cometidos pela internet.

O multilateralismo como princípio de segurança

Um dos aspectos mais relevantes da OCS é a tentativa de construir mecanismos de segurança sem depender exclusivamente de alianças militares tradicionais. As decisões da organização são baseadas no consenso, com ênfase na igualdade entre os Estados, no respeito à soberania e na consideração dos interesses nacionais dos integrantes.

Em julho, os ministros das Relações Exteriores dos países-membros reafirmaram que a organização não é dirigida contra outros Estados ou organizações internacionais e que pretende permanecer aberta ao diálogo e à cooperação. Também defenderam uma ordem internacional mais representativa e multipolar, baseada no direito internacional, no multilateralismo e no papel central das Nações Unidas.

Essa característica ajuda a explicar a amplitude da organização. Além dos dez membros plenos, a OCS mantém Estados observadores e parceiros de diálogo. Entre estes estão países do Sudeste Asiático, Oriente Médio e Eurásia, como Egito, Turquia, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Vietnã e Laos.

Nos encontros que antecedem a cúpula, representantes desses países têm demonstrado interesse em ampliar a cooperação com a organização justamente em áreas relacionadas à segurança, conectividade, comércio e desenvolvimento. O Laos, por exemplo, discutiu em Bishkek cooperação contra cibercrime, tráfico de drogas, crime organizado transnacional e terrorismo. O Vietnã destacou a possibilidade de ampliar a cooperação contra terrorismo e crimes transnacionais e fortalecer os vínculos entre a OCS e a ASEAN.

Uma organização que ultrapassa a Ásia Central

A expansão da OCS modificou significativamente sua dimensão política. O que começou como um mecanismo de confiança entre países que compartilhavam fronteiras terrestres passou a reunir dez Estados com diferentes sistemas políticos, interesses econômicos e posições internacionais.

A presença simultânea de China, Rússia, Índia, Irã e Paquistão transforma a organização em uma das principais plataformas de diálogo político e de segurança da Eurásia. Isso não significa, contudo, que os membros tenham posições idênticas sobre todos os conflitos internacionais.

As próprias divergências entre seus integrantes fazem parte da característica da organização. Índia e Paquistão, por exemplo, mantêm disputas bilaterais importantes, enquanto China e Índia também possuem questões fronteiriças e estratégicas. Ainda assim, os dois países participam de um mesmo mecanismo multilateral de diálogo.

É justamente nesse aspecto que está uma das particularidades da OCS: a organização procura criar canais permanentes de negociação entre países que não necessariamente compartilham uma mesma visão geopolítica.

China defende uma ordem mais multipolar

Para Beijing, a OCS também representa uma das plataformas por meio das quais a China promove sua visão de uma governança internacional baseada em maior participação dos países do chamado Sul Global e em uma distribuição mais ampla do poder internacional.

Em encontro bilateral realizado nesta segunda-feira em Bishkek, Xi Jinping e Putin discutiram, entre outros assuntos, a cooperação entre China e Rússia e questões internacionais. Xi afirmou que os dois países deveriam trabalhar com outros Estados para promover a reforma da governança global e uma ordem mundial multipolar considerada mais justa e ordenada.

A posição chinesa, porém, é apresentada dentro da própria estrutura multilateral da OCS. A declaração dos chanceleres da organização divulgada em julho associa a emergência de novos centros econômicos e políticos ao fortalecimento do multilateralismo, do direito internacional e da cooperação entre Estados, tendo a ONU como centro coordenador.

A cúpula de Bishkek ocorre, portanto, em um momento em que a segurança internacional se torna cada vez mais complexa. Terrorismo, crime organizado, tráfico de drogas e ciberameaças se somam a conflitos militares, disputas territoriais e tensões entre grandes potências.

Nesse contexto, a experiência da OCS apresenta uma alternativa de governança baseada na negociação entre diferentes Estados e na construção de mecanismos coletivos de segurança. A China, como país fundador, sede do secretariado e uma das principais potências econômicas e políticas da organização, ocupa posição decisiva nesse processo.

Mais do que uma reunião entre governos, a cúpula de Bishkek evidencia a disputa em curso sobre como a segurança internacional deve ser organizada em um mundo cada vez mais multipolar: por meio de alianças exclusivas entre grupos de países ou pela ampliação de instituições multilaterais capazes de reunir Estados com interesses distintos em torno de mecanismos comuns de diálogo e cooperação.

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Redação CBM Brasília
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