Morreu nesta quarta-feira (12), em Beijing, Zhu Rongji, ex-primeiro-ministro da China e uma das figuras centrais da transformação econômica do país nas décadas de 1990 e 2000. Segundo comunicado divulgado pela Agência Xinhua em nome do Comitê Central do Partido Comunista da China (PCCh), do Congresso Nacional do Povo, do Conselho de Estado e da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, Zhu morreu às 11h06, aos 98 anos.
Nascido em outubro de 1928, em Changsha, na província de Hunan, Zhu construiu uma trajetória política marcada pela formação técnica, pela passagem por órgãos de planejamento econômico e por uma ascensão gradual dentro da estrutura do Partido Comunista.
Sua carreira coincidiu com algumas das mudanças mais profundas da economia chinesa, desde a transição para uma economia socialista de mercado até a abertura comercial que culminou na entrada do país na Organização Mundial do Comércio (OMC), em 2001.
Zhu ingressou na Universidade Tsinghua em 1947, onde estudou engenharia elétrica e fabricação de máquinas. Participou da Liga da Juventude Democrática e entrou para o Partido Comunista em outubro de 1949, ano da fundação da República Popular da China. Em 1951, após concluir a universidade, foi encaminhado para trabalhar no Ministério da Indústria do Nordeste.
Sua carreira, entretanto, sofreu uma interrupção durante as campanhas políticas do período maoísta. Em 1957, durante a campanha Antidireitista, Zhu foi classificado como direitista depois de apresentar críticas à estrutura partidária.
Ele contou que havia sido pressionado por colegas a apresentar opiniões ao grupo dirigente do órgão em que trabalhava. Segundo seu próprio relato, o episódio resultou na perda do cargo de vice-diretor de departamento e na expulsão do Partido. Ainda assim, permaneceu trabalhando na Comissão Estatal de Planejamento.
Durante a Revolução Cultural, Zhu foi enviado para trabalhar em uma escola de quadros de “7 de Maio”, experiência que durou de 1970 a 1975.
Em relato autobiográfico, afirmou ter trabalhado em atividades agrícolas, cuidado de animais e exercido funções manuais. Depois, durante o período de Reforma e Abertura, retornou a Beijing e passou pelo Ministério do Petróleo e pela Academia Chinesa de Ciências Sociais. Sua condição foi revista e ele recuperou o vínculo partidário e suas funções.
A ascensão de Zhu ocorreu principalmente no período de reformas iniciado por Deng Xiaoping. Em 1979, ingressou na Comissão Estatal de Economia e, nos anos seguintes, ocupou posições de crescente importância, tornando-se vice-diretor e depois vice-secretário do Partido no órgão. Em 1987, sua carreira ganhou dimensão nacional quando foi enviado para Shanghai.
Zhu foi vice-secretário do Partido, prefeito e, posteriormente, secretário do Partido Comunista em Shanghai entre 1987 e 1991. A cidade atravessava um período particularmente difícil: era necessário modernizar uma enorme base industrial, resolver problemas fiscais e enfrentar o atraso na infraestrutura enquanto a economia chinesa começava a abandonar mecanismos do planejamento estatal.
Em Shanghai, Zhu ganhou reputação de administrador pragmático, exigente e pouco tolerante com a burocracia. Documentos reunidos posteriormente em Discursos de Zhu Rongji em Shanghai, coleção com 106 discursos, conversas, cartas e instruções produzidos durante seu período na cidade, mostram a preocupação com eficiência administrativa, qualidade dos serviços públicos e desenvolvimento econômico.
Ele também desempenhou papel importante na preparação do projeto de desenvolvimento de Pudong, região situada na margem leste do rio Huangpu, que hoje abriga um dos aeroportos mais importantes do país.
Zhu Rongji defendia que a abertura de Pudong poderia ajudar a transformar Shanghai em um centro financeiro, comercial, tecnológico e de informações. Ele afirmou em 1988 que o desenvolvimento de Pudong era uma esperança para a construção de uma “nova Shanghai”. Quase 40 anos depois, a aposta se demonstra acertada: a região é a força motriz do desenvolvimento de uma das cidades mais avançadas do país.
A experiência em Shanghai serviu como laboratório para algumas das ideias que Zhu levaria posteriormente para o governo central: o aprofundamento do processo de Reforma e Abertura, com maior eficiência administrativa, abertura ao capital e ao comércio internacional, reestruturação industrial e disciplina fiscal.
O bom desempenho econômico de Shanghai levou, em 1991, Zhu Rongji ao cargo de vice-primeiro-ministro do país. No ano seguinte, tornou-se membro do Comitê Permanente do Politburo do Partido Comunista, o principal núcleo decisório da estrutura política chinesa.
Em 1993, assumiu também a presidência do Banco Popular da China, o banco central do país, função que exerceu até 1995.
Foi nesse período que Zhu ganhou projeção como principal responsável pela política macroeconômica chinesa.
A economia havia experimentado forte crescimento, mas também enfrentava inflação, excesso de investimentos e desequilíbrios financeiros.
Uma das tarefas mais difíceis foi combater o chamado problema dos “triângulos de dívida”, uma cadeia de débitos entre empresas e instituições financeiras que ameaçava a estabilidade econômica. Zhu também atuou na reorganização do sistema tributário e financeiro e na tentativa de controlar o superaquecimento econômico.
Ele teve papel importante na chamada “aterrissagem suave” da economia. O objetivo era reduzir inflação e excessos sem interromper o processo de crescimento e reforma.
Em março de 1998, Zhu Rongji chegou ao cargo de primeiro-ministro do Conselho de Estado, equivalente ao chefe de governo da China. Permaneceu no posto até março de 2003, durante a presidência de Jiang Zemin.
Seu governo enfrentou uma sequência de desafios. A crise financeira asiática de 1997-1998 atingia as economias da região e ameaçava contaminar a China. Ao mesmo tempo, o país sofreu grandes enchentes em 1998 e 1999.
A resposta combinou estímulo à demanda doméstica, investimentos públicos e continuidade das reformas.
O próprio relatório final de governo apresentado por Zhu em março de 2003 destaca a mudança para uma política fiscal mais ativa e uma política monetária prudente como parte da resposta à crise asiática e às dificuldades internas.
A administração de Zhu também reformou o sistema tributário, fortaleceu a arrecadação central e alterou a distribuição de receitas entre o governo central e as províncias. Paralelamente, avançou na reforma habitacional e na construção de um sistema de seguridade urbana.
Um dos acontecimentos mais importantes de seu período no poder foi a conclusão das negociações para a entrada da China na Organização Mundial do Comércio. O país tornou-se membro da OMC em dezembro de 2001, abrindo uma nova etapa de integração da economia chinesa ao comércio mundial.
A adesão exigiu mudanças profundas, incluindo redução de tarifas, maior abertura de setores econômicos e adaptação das regras internas aos compromissos multilaterais. Para Zhu Rongji, a abertura comercial era parte de um processo maior de modernização da economia.
A nota oficial de falecimento divulgada nesta quarta-feira destaca justamente a participação de Zhu nas negociações para a entrada chinesa na OMC e afirma que o processo ampliou e aprofundou a abertura do país.
A combinação entre reformas domésticas e integração internacional ajudou a preparar o terreno para a aceleração econômica chinesa das décadas seguintes. Durante o período em que Zhu comandou o governo, a China consolidou uma base industrial cada vez mais voltada para exportações e passou a ocupar posição crescente nas cadeias globais de produção.
Além das políticas econômicas, Zhu ficou conhecido pelo estilo direto e pela imagem de dirigente disposto a enfrentar problemas considerados difíceis. Durante sua passagem por Shanghai, defendia que funcionários públicos deveriam resolver problemas concretos em vez de produzir discursos burocráticos. Publicações oficiais posteriores destacaram sua defesa de um governo “para o povo, íntegro e eficiente”.
Essa reputação o transformou em uma das figuras mais conhecidas da liderança chinesa do período. Depois de deixar o cargo de primeiro-ministro, em 2003, Zhu manteve uma presença pública muito mais discreta.
Sua morte encerra a trajetória de um dirigente que ocupou posições centrais durante uma das fases decisivas da modernização chinesa. De Shanghai ao governo central, passando pelo Banco Popular da China e pela liderança do Conselho de Estado, Zhu Rongji esteve diretamente envolvido na construção de mecanismos que aprimoraram o socialismo com características chinesas.
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