A arte de criar o próprio caminho: lições de Lazikou

A arte de criar o próprio caminho: lições de Lazikou

  • 6 de agosto de 2026
  • Mundo

A primeira vez que ouvi falar da histórica Batalha de Lazikou foi em 2021, ao ler o livro A Estrela Vermelha Sobre a China, de Edgar Snow. O autor descreve em pormenores como o Exército Vermelho chinês, ao entrar na província de Gansu, viu-se em um desfiladeiro estreito, entre penhascos e dividindo o espaço com a forte correnteza do rio Lazikou.

O local fica no condado de Diebu, na prefeitura autônoma tibetana de Gannan, e o nome Lazikou, na língua tibetana, significa “desfiladeiro perigoso”. Desde a antiguidade, o local, apesar do terreno acidentado, sempre foi um caminho importante ligando as províncias de Sichuan e Gansu.

Na Garganta de Lazikou, onde aconteceu a famosa batalha, o rio tem apenas 8 metros de largura, sendo uma ponte estreita a única passagem. Do outro lado havia uma fortificação militar equipada com metralhadoras, controlada pelas tropas inimigas. Dessa forma, poucos homens eram capazes de derrotar um exército inteiro.

Retornar não era uma opção: o Exército Vermelho estava encurralado, tanto pela frente como pela retaguarda. O jeito era seguir em frente, mas cada soldado que tentava cruzar a ponte era morto antes de concluir a travessia.

A situação exigia um ataque incomum, capaz de surpreender o inimigo. O exército vermelho continuou o ataque frontal para distrair os soldados do Kuomintang enquanto uma equipe de elite escalava os penhascos para o ataque surpresa que permitiu ao Exército Vermelho vencer a batalha e seguir adiante.

Como eu imaginava Lazikou

Em 2021, ao ler o livro de Snow, eu imaginava o noroeste da China como um grande deserto. Minha primeira visita a Gansu, em março de 2023, corroborou essa visão, pois não havia verde e tudo estava seco. Mas em Beijing, onde moro, também é assim, a natureza hiberna durante o frio inverno para voltar exuberante quando esquenta.

Retornei a Gansu em 2024. Lanzhou estava linda no verão, com as ruas cheias de gente e uma intensa vida noturna no entorno da ponte Zhongshan. Mas no dia seguinte fui para o norte, atravessando o deserto de Gobi e terminando a viagem em Dunhuang, um antigo entroncamento da Rota da Seda.

Aproveito para fazer um esclarecimento importante: Gobi, palavra de origem mongol que significa “lugar sem água”, não é exatamente um deserto, mas uma vasta região geográfica com diferentes níveis de aridez, que engloba desertos, regiões semi-áridas e até mesmo pradarias.

Por conta dessa experiência limitada, eu sempre imaginei Gansu como um grande deserto, e de fato uma boa parte da província tem uma paisagem árida ou semi-árida. Ao ler sobre Lazikou, me veio à cabeça uma paisagem semelhante a cânions em meio ao deserto.

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No início deste ano retornei a Dunhuang para o Seminário sobre a Popularização da Cultura de Dunhuang, da Cultura das Tiras de Bambu e da Comunicação Internacional da Cultura Chinesa.

No voo de Xi’an para Dunhuang, ao sobrevoar Gansu vi pela janela uma bela cordilheira, com picos cobertos de neve, se extendendo até onde minha vista alcançava, do outro lado havia um deserto.

Aquelas montanhas formam a Cordilheira Qilian, borda nordeste do Planalto Tibetano, e o deserto era Gobi. Isso significa que o avião estava sobrevoando o Corredor de Hexi, a rota histórica da Rota da Seda.

Lazikou, por sua vez, também fica no Planalto Tibetano, mas longe da Cordilheira Qilian.

A Lazikou que vi

Em abril deste ano vi a vegetação verde e chuva ao longo das belas paisagens do sul de Gansu, e a viagem de carro entre Minxian e Lazikou foi interessantíssima por conta da transição entre o Planalto de Loess e o Planalto Qinghai-Tibet.

No caminho senti a mudança de pressão nos ouvidos, como ocorre quando viajamos de avião, sinal de que estava em uma altitude muito alta: 2700 metros. Foi essa a altitude que a jovem Renchentso, moradora local, me mostrou em seu relógio esportivo equipado com barômetro.

Funcionária do departamento de turismo do município, ela foi minha guia no Memorial da Batalha de Lazikou e na minha primeira visita ao local da batalha.

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A passagem é realmente estreita e cercada por penhascos íngremes com cerca de 80 metros de altura. Em meio ao desfiladeiro, o rio corre rapidamente. A ponte é estreita, mas bem menos que aquela usada pelo Exército Vermelho há 90 anos.

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Diante da ponte, do outro lado do rio, fica a pequena fortificação usada para defender a passagem. Parece realmente impossível cruzar aquele local sem tomar tiros. Renchentso me explicou que a fortificação atual é apenas uma réplica: a original explodiu ao ser atacada com granadas pelos soldados que haviam escalado o penhasco.

Ela também me mostrou o local por onde os jovens soldados vermelhos teriam escalado para chegar ao topo. O grupo era liderado por um jovem de 17 anos, da etnia Miao, conhecido como Yun Gui Chuan, que antes de se juntar ao exército vermelho trabalhava colhendo ervas e lenha nas montanhas, tornando-se um exímio escalador.

Nas proximidades do local da batalha foi construído um monumento em homenagem aos heróis daquela batalha. Como muitos turistas visitam Lazikou hoje em dia, isso gerou oportunidades para os ambulantes locais, que vendem produtos típicos da região, como alimentos, ervas medicinais e artesanato.

A Lazikou que senti

Quando retornei a Lazikou, em julho, tive que me hospedar em uma pousada próxima ao local da histórica batalha, pois estava com uma equipe de filmagem e iríamos gravar de madrugada.

Na pousada fui atendido por dois jovens, um rapaz e uma garota, ambos com 18 anos de idade. Descobri que são estudantes de medicina recém ingressados na universidade, que haviam voltado a sua terra natal por conta das férias escolares e estavam trabalhando na pousada para ganhar algum dinheiro.

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Após jantar e gravar entrevista com os jovens, fui para o quarto tomar banho e dormir. Já eram quase 11 da noite. Acordei às 3:00, pois às 3:30 tínhamos que estar a caminho de Lazikou. O portão estava trancado e tivemos que acordar os jovens para abri-lo.

Naquela área de geografia acidentada e longe do ambiente urbano, a noite é extremamente escura. O exército vermelho se locomovia à noite usando apenas tochas para conseguir ver alguma coisa. Ali, à beira do rio, caminhei com uma tocha na mão.

Com uma lanterna, podemos ver longe, mas com a tocha, eu conseguia ver apenas onde estava pisando e onde pisaria ao dar o próximo passo. Era impossível ver o que havia diante de mim, eu só conseguia ouvir o barulho das águas do rio ao meu lado.

Para piorar, o chão é cheio de pedras, algumas roliças, que podem nos derrubar, outras pontudas, que podem nos cortar. Mesmo usando um tênis moderno, caminhar por ali era desconfortável e eu não consseguia andar rápido nem em linha reta.

Ao amanhecer, calcei uma sandália semelhante às usadas pelo exército vermelho, na verdade mais dura e reforçada. À noite faz muito frio, mesmo no verão, e muitos soldados não tinham meia. A sensação de pisar nas pedras com aquela sandália era semelhante à de andar descalço, a cada passo eu sentia que as pedras iriam furar meus pés.

Mas o exército vermelho chegou em Lazikou assim, na escuridão da noite, para atacar. Naquele terreno e com aquelas sandalhas, sem conseguir ver muito longe, os soldados conseguiam marchar e correr.

Lições de Lazikou

O que motivava o exército vermelho a seguir em frente, mesmo com tantas dificuldades enormes no caminho? O que o mantinha unido? Os camponeses da China há muito tempo eram oprimidos, mas não se rebelavam porque lhes faltava organização, motivação e um objetivo claro. Quando alguém lhes deu isso, eles puderam finalmente explorar sua força e usá-la para revolucionar o país.

Não tenho dúvidas de que todos os mártires que tombaram ao longo do caminho da Longa Marcha estariam orgulhosos de ver que, graças àquela luta, a China conseguiu se reerguer, retirar seu povo da extrema pobreza e voltar a ser uma potência mundial.

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Para o Brasil, que se encontra em um estado de profunda apatia e polarização, a experiência chinesa nos lembra que mesmo nos momentos mais difíceis, quando tudo parece estar perdido, a luta popular ainda assim tem condição de encontrar um caminho e seguir em frente. O importante é nunca desistir.

Lazikou também me fez refletir sobre o comodismo que nos leva a aceitar a opressão sem questioná-la. É mais cômodo submeter-se à injustiça e à exploração que pegar em armas e marchar 2.500 km arriscando a vida, mas se os camponeses da China não tivessem feito isso, não teriam conseguido prosperar e se libertar da pobreza.

Mas a maior lição é que quando o caminho tradicional para atravessar Lazikou estava fechado, veio Yun Gui Chuan e abriu o caminho, surpreendendo o inimigo e permitindo que o avanço continuasse. Podemos sempre criar o nosso próprio caminho.

Redação CBM Brasília
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