A rotina de escovar os dentes pode ser um grande desafio para muitas famílias de crianças com autismo e Síndrome do X Frágil. O contato da escova com a boca, o sabor da pasta de dente, a textura das cerdas e até a iluminação do banheiro podem causar desconforto, ansiedade e crises, transformando um hábito simples em uma tarefa difícil.

Para ajudar pais, cuidadores e profissionais de saúde, a Universidade Federal do Paraná (UFPR), em parceria com o Instituto Buko Kaesemodel (IBK), lançou a cartilha “Saúde Bucal no Autismo e Síndrome do X Frágil – Um Guia para Pais e Cuidadores”. O material é gratuito e reúne estratégias práticas para tornar a higiene bucal menos estressante e preparar crianças para consultas odontológicas.
Segundo a gestora do Instituto Buko Kaesemodel, Luz María Romero, a publicação nasceu da necessidade de oferecer informações específicas para famílias que enfrentam essas dificuldades diariamente.
“O que percebemos ao longo dos anos é que muitas famílias querem cuidar, mas não encontram informações específicas para a realidade que vivem. A cartilha foi construída justamente para transformar conhecimento científico em orientações práticas, capazes de tornar esse cuidado mais leve e possível no dia a dia”
afirma Romero.
Especialistas explicam que as dificuldades vão além da resistência à escovação. Pessoas com deficiência intelectual podem apresentar hipersensibilidade ao toque, seletividade alimentar, alterações motoras e dificuldades de comunicação, o que dificulta até mesmo a identificação de dores ou problemas na boca.
Sem os cuidados adequados, essas condições podem afetar a alimentação, o sono, o comportamento e a qualidade de vida.
De acordo com o presidente do Conselho Regional de Odontologia do Paraná (CRO-PR), professor Aguinaldo Farias, pequenos detalhes podem representar grandes obstáculos. “Às vezes, algo aparentemente simples, como o sabor do creme dental, a textura da escova ou o toque na boca, representa uma barreira importante. Não basta orientar que a criança precisa escovar os dentes. É preciso ajudar cada família a descobrir como tornar esse cuidado possível dentro da sua realidade.”
O guia orienta que a higiene bucal seja adaptada às necessidades de cada criança, em vez de seguir um único modelo.
Entre as estratégias sugeridas estão:
O objetivo é aumentar a previsibilidade das atividades e reduzir a ansiedade tanto em casa quanto no consultório.
Segundo Farias, iniciativas como essa também contribuem para capacitar os próprios cirurgiões-dentistas no atendimento a pessoas com deficiência.
“Precisamos de uma Odontologia cada vez mais inclusiva. Isso significa compreender as características de cada paciente, oferecer um atendimento humanizado e reconhecer quando há necessidade de encaminhamento para serviços especializados.”
afirma o presidente.
Nos últimos anos, o CRO-PR também tem investido na capacitação de profissionais da rede pública e estuda disponibilizar a cartilha em sua biblioteca virtual.
Desenvolvida pela UFPR, sob orientação da pesquisadora Dra. Yasmine Pupo, em parceria com o Instituto Buko Kaesemodel, a publicação faz parte do projeto de extensão Saúde Bucal Inclusiva e do programa Eu Digo X, voltado à ampliação do acesso ao diagnóstico, assistência e produção de conhecimento sobre a Síndrome do X Frágil.
A cartilha pode ser baixada gratuitamente no site do programa Eu Digo X.
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